Tomo o último gole de suco de laranja sorrindo pensando em hoje.
Os olhos dele nos meus, as palavras que saiam de sua boca em direção às minhas orelhas e o abraço, como um beijo. Como um beijo. Porque eu me perguntei se ele sentiu meu coração tentando rachar
minha costela, se eu fiz direito e a lentidão rápida do momento.
Deixo o copo vazio na mesa e subo a escada pulando dois degraus de cada vez, às vezes quatro. Entro no meu quarto e me olho no espelho. Levanto os braços. Fecho os olhos. Caio de costas na minha cama.
Respiro o cheiro de sono que meu travesseiro exala, me deleitando. Olho para o teto amarelo. Que revira volta. Ainda não acredito que é verdade. "Não, não, nã..." eu falo até sorrir e me ver incapaz de negar.
Ainda sorrindo adormeço.
Eu estava deitada na grama, olhando para o céu alaranjado e tentando sentir o aroma de fim de tarde. Estava sonhando? Virei minha cabeça e vi uma enorme laranjeira com suas folhas dançando com o vento e suas laranjas perfeitas. Desci meu olhar até o tronco perfeitamente marrom, até as raízes que serviam de assento para ele, para Delta. Eu estava sonhando. Me levantei com um pulo e continuei a encara-lo, inclinando minha cabeça para o lado. Ele estava tão bonito, estava sorrindo. Acenei de leve para ele. O Delta não me viu e continuou sorrindo para uma laranja que tinha entre suas mãos.
Comecei a andar até a laranjeira sem avançar. Comecei a correr até a laranjeira, avançando lentamente e um pássaro passou sobre mim, quarenta e duas vezes mais rápido que eu. No momento em que eu finalmente cheguei perto, Delta virou o rosto para mim alargando o sorriso. Me ajoelhei diante dele.
Ele se inclinou para frente, se aproximando. Virei a cabeça para o lado, temendo não conseguir me controlar. E avistei outra laranjeira, com outro Delta sentado à suas raízes. Virei minha cabeça para frente outra vez, para confirmar que ele estava comigo. Mas apenas campos se estendiam diante dos meus olhos. Me levantei com outro pulo, e agoniada, corri até a outra laranjeira. Eu avançava rápido, quase voava e não parei até mesmo quando já estava próxima. Delta olhava para mim, maravilhado. Não parei. Ele sorria como nunca. Não parei. Ele acenou de leve. Me joguei. Deitada em cima dele, deixei meus braços se fecharem em torno dele. Ele levantou a cabeça, se aproximando da minha. Não virei meu rosto. Nossas bocas estavam quase se tocando e eu não sentia meu coração bater.
Eu sabia que estava sonhando.
Abri os olhos e me deparei com um teto amarelo.
