sábado, 27 de agosto de 2011

Laranjeiras

                                   
   Tomo o último gole de suco de laranja sorrindo pensando em hoje.
  
   Os olhos dele nos meus, as palavras que saiam de sua boca em direção às minhas orelhas e o abraço, como um beijo. Como um beijo. Porque eu me perguntei se ele sentiu meu coração tentando rachar
minha costela, se eu fiz direito e a lentidão rápida do momento.
  
   Deixo o copo vazio na mesa e subo a escada pulando dois degraus de cada vez, às vezes quatro. Entro no meu quarto e me olho no espelho. Levanto os braços. Fecho os olhos. Caio de costas na minha cama.
Respiro o cheiro de sono que meu travesseiro exala, me deleitando. Olho para o teto amarelo. Que revira volta. Ainda não acredito que é verdade. "Não, não, nã..." eu falo até sorrir e me ver incapaz de negar.

   Ainda sorrindo adormeço.

   Eu estava deitada na grama, olhando para o céu alaranjado e tentando sentir o aroma de fim de tarde. Estava sonhando? Virei minha cabeça e vi uma enorme laranjeira com suas folhas dançando com o vento e suas laranjas perfeitas. Desci meu olhar até o tronco perfeitamente marrom, até as raízes que serviam de assento para ele, para Delta. Eu estava sonhando. Me levantei com um pulo e continuei a encara-lo, inclinando minha cabeça para o lado. Ele estava tão bonito, estava sorrindo. Acenei de leve para ele. O Delta não me viu e continuou sorrindo para uma laranja que tinha entre suas mãos.
Comecei a andar até a laranjeira sem avançar. Comecei a correr até a laranjeira, avançando lentamente e um pássaro passou sobre mim, quarenta e duas vezes mais rápido que eu. No momento em que eu finalmente cheguei perto, Delta virou o rosto para mim alargando o sorriso. Me ajoelhei diante dele.
Ele se inclinou para frente, se aproximando. Virei a cabeça para o lado, temendo não conseguir me controlar. E avistei outra laranjeira, com outro Delta sentado à suas raízes. Virei minha cabeça para frente outra vez, para confirmar que ele estava comigo. Mas apenas campos se estendiam diante dos meus olhos. Me levantei com outro pulo, e agoniada, corri até a outra laranjeira. Eu avançava rápido, quase voava e não parei até mesmo quando já estava próxima. Delta olhava para mim, maravilhado. Não parei. Ele sorria como nunca. Não parei. Ele acenou de leve. Me joguei. Deitada em cima dele, deixei meus braços se fecharem em torno dele. Ele levantou a cabeça, se aproximando da minha. Não virei meu rosto. Nossas bocas estavam quase se tocando e eu não sentia meu coração bater.
   Eu sabia que estava sonhando.

                                          Abri os olhos e me deparei com um teto amarelo.

sábado, 12 de março de 2011

Quando Rita deixou de precisar de um peixe

  

Eram 4 horas da manhã e Rita ainda estava no bar esperando. Um amor aparecer, uma proposta, uma ideia preencher sua cabeça vazia, uma conversa, ou a vida.
    Enquanto segurava sua xícara, percorreu seus olhos negros pelo lugar cheio de almas semelhantes a sua; solitária e sem passado e muito menos futuro. Eram sempre as mesmas pessoas. Eram sempre os mesmo gestos. No total eram ora quinze ora vinte, dependendo dos dias. Rita costumava prender seu olhar a três. Um jovem de cabelos morenos e cacheados, sempre com um copo na mão e um cigarro à boca. Uma mulher de cinquenta anos loira, exageradamente maquiada para disfarçar seu olhar triste. E uma garota de cabelos curtos que usava roupas de tons fortes para compensar seu tom claro de pele e acompanhava um homem ruivo.
Rita nunca se arriscara a cumprimentar ou conversar com nenhum deles, embora tivesse vontade.
    Talvez fosse por isso que sua vida fosse tão vazia e impassível; a falta de coragem de se arriscar.
    Súbito, Rita sentiu um cansaço mesclado a um enjôo diferente. Ela abandonou sua xícara vazia, e correu até o banheiro. A jovem se olhava no espelho com desgosto. Seu rosto, como sua vida, estava indiferente. Seus olhos   negros antes tão profundos, estavam vazios. Com a boca trêmula, ela tentou um sorriso para se lembrar de como era fazê-lo. Repuxou suas bochechas para baixo com suas duas mãos, e formara uma careta. O que ela estava fazendo naquele bar há tantos anos, afinal?
    Alguns minutos depois, Rita saiu do banheiro, e em vez de tornar a se sentar, saiu do bar rumando o cemitério. Ela não sabia porque teve vontade de fazê-lo, mas essa fora a primeira vez em muito tempo que tivera vontade de ir a algum lugar e se libertar dos anos que passou naquele bar frequentado por almas vazias.
    Ela passou a ler os túmulos, um por um, até que encontrou uma menina tristonha, ao lado de um dos túmulos. As duas se encararam por um longo tempo, quase enxergando a alma uma da outra.
           " - É o túmulo do meu pai - sussurrou a menina ainda encarando Rita.
             - Faz muito tempo que...
             - Dois anos - interrompeu a menina - minha mãe já não vem mais comigo. Só assim ela vai esquecê-lo, eu acho.
             - Eu não iria querer esquecer alguém que me amou.
             - Foi o que ela disse, está bem? - disse a menina não mais sussurrando.
             - Está bem. Eu não costumo conversar, eu esqueci como é - se desculpou Rita, envergonhada.
             - Eu nunca te vi por aqui, e olha que eu venho todos os dias - falou a menina, se animando com a conversa.
             - É a primeira vez que eu venho aqui, eu queria abandonar a minha rotina, acho eu.
    Um apito que se repetia tomou o lugar da resposta da pequena garota.
              - É meu relógio, eu preciso ir para casa. Meu nome é Georgia. Até mais! - se despediu Georgia, que deu às costas a Rita e se pôs a correr.
    Rita acenou com a mão, mesmo sabendo que Georgia não veria. Rita se sentiu completa, sua cabeça recomeçou a funcionar, ela sentia seu coração batendo, e um calor a preencheu. Seguiu o exemplo de Georgia e correu até o seu apartamento, se sentiu viva outra vez. Encontraria Georgia no dia seguinte.



Às vezes só precisamos de uma alma para nos fazer companhia.