sábado, 12 de março de 2011

Quando Rita deixou de precisar de um peixe

  

Eram 4 horas da manhã e Rita ainda estava no bar esperando. Um amor aparecer, uma proposta, uma ideia preencher sua cabeça vazia, uma conversa, ou a vida.
    Enquanto segurava sua xícara, percorreu seus olhos negros pelo lugar cheio de almas semelhantes a sua; solitária e sem passado e muito menos futuro. Eram sempre as mesmas pessoas. Eram sempre os mesmo gestos. No total eram ora quinze ora vinte, dependendo dos dias. Rita costumava prender seu olhar a três. Um jovem de cabelos morenos e cacheados, sempre com um copo na mão e um cigarro à boca. Uma mulher de cinquenta anos loira, exageradamente maquiada para disfarçar seu olhar triste. E uma garota de cabelos curtos que usava roupas de tons fortes para compensar seu tom claro de pele e acompanhava um homem ruivo.
Rita nunca se arriscara a cumprimentar ou conversar com nenhum deles, embora tivesse vontade.
    Talvez fosse por isso que sua vida fosse tão vazia e impassível; a falta de coragem de se arriscar.
    Súbito, Rita sentiu um cansaço mesclado a um enjôo diferente. Ela abandonou sua xícara vazia, e correu até o banheiro. A jovem se olhava no espelho com desgosto. Seu rosto, como sua vida, estava indiferente. Seus olhos   negros antes tão profundos, estavam vazios. Com a boca trêmula, ela tentou um sorriso para se lembrar de como era fazê-lo. Repuxou suas bochechas para baixo com suas duas mãos, e formara uma careta. O que ela estava fazendo naquele bar há tantos anos, afinal?
    Alguns minutos depois, Rita saiu do banheiro, e em vez de tornar a se sentar, saiu do bar rumando o cemitério. Ela não sabia porque teve vontade de fazê-lo, mas essa fora a primeira vez em muito tempo que tivera vontade de ir a algum lugar e se libertar dos anos que passou naquele bar frequentado por almas vazias.
    Ela passou a ler os túmulos, um por um, até que encontrou uma menina tristonha, ao lado de um dos túmulos. As duas se encararam por um longo tempo, quase enxergando a alma uma da outra.
           " - É o túmulo do meu pai - sussurrou a menina ainda encarando Rita.
             - Faz muito tempo que...
             - Dois anos - interrompeu a menina - minha mãe já não vem mais comigo. Só assim ela vai esquecê-lo, eu acho.
             - Eu não iria querer esquecer alguém que me amou.
             - Foi o que ela disse, está bem? - disse a menina não mais sussurrando.
             - Está bem. Eu não costumo conversar, eu esqueci como é - se desculpou Rita, envergonhada.
             - Eu nunca te vi por aqui, e olha que eu venho todos os dias - falou a menina, se animando com a conversa.
             - É a primeira vez que eu venho aqui, eu queria abandonar a minha rotina, acho eu.
    Um apito que se repetia tomou o lugar da resposta da pequena garota.
              - É meu relógio, eu preciso ir para casa. Meu nome é Georgia. Até mais! - se despediu Georgia, que deu às costas a Rita e se pôs a correr.
    Rita acenou com a mão, mesmo sabendo que Georgia não veria. Rita se sentiu completa, sua cabeça recomeçou a funcionar, ela sentia seu coração batendo, e um calor a preencheu. Seguiu o exemplo de Georgia e correu até o seu apartamento, se sentiu viva outra vez. Encontraria Georgia no dia seguinte.



Às vezes só precisamos de uma alma para nos fazer companhia.